Carta ao Conpresp

Atualizado: 19 de Jun de 2018

Ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – Conpresp


Ilmo. Sr. Cyro Laurenza

Presidente do Conpresp

São Paulo, 7 de maio de 2018


Prezados(as) senhores(as),


Estivemos, há pouco tempo, neste Conselho testemunhando o tombamento de um importante número de obras representativas da arquitetura moderna paulista, o que foi considerado como um avanço para o reconhecimento público do valor desse importante patrimônio da cultura material da cidade.

Hoje, no entanto, vimos a lamentar profundamente as perdas e mortes desnecessárias e injustificadas no desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida. Vimos a lamentar, também, a perda desse ícone da arquitetura moderna paulista, importante obra do arquiteto Roger Zmekhol (1928-1976), tombado pelo Conpresp em 1992.

O edifício foi construído entre 1961 e 1966 seguindo de forma inspirada os preceitos do movimento moderno. Foi uma obra contemporânea de arranha-céus como o Chicago Federal Center (1960-1974) de Mies van der Rohe e de outros importantes edifícios erguidos em Chicago e Nova York, que hoje são considerados patrimônios arquitetônicos dessas cidades. No entanto, o edifício Wilton Paes de Almeida não pode ser considerado uma mera repetição daquelas importantes obras modernas construídas na América do Norte. Pelo contrário, representava perfeitamente as condicionantes construtivas e a situação da indústria da construção do Brasil à época. O edifício não usava estrutura metálica, como seus contemporâneos norte-americanos, mas uma estrutura de concreto armado com parrudas colunas recuadas da fachada que deixavam em balanço lajes de mais de dois metros, que se afinavam até a borda, proporcionando ao corpo do edifício a especial leveza que as fotografias de época testemunham. As lajes nervuradas também racionalizavam a estrutura, reduzindo o número de colunas para quatro, cujo trabalho solidário com o robusto núcleo de circulação vertical, onde os serviços encontravam-se instalados, deixavam a planta livre. O invólucro do edifício, o curtain-wall, era arrojado e elegantemente modulado, usando montantes de alumínio e vidros transparentes, levemente esverdeados. A esbelteza da caixilharia foi pensada de modo a valorizar a superfície envidraçada como elemento principal da fachada, ressaltando o caráter de um prisma puro de cristal. Um prodígio pioneiro da engenharia e da arquitetura moderna paulista de então.

Esse marco da arquitetura moderna ruiu na madrugada do 1º de maio, afetando ainda outros importantes edifícios de seu entorno. Provavelmente, o colapso do edifício está ligado a todas as caraterísticas acima referidas, uma vez que, com o abandono do edifício por parte da União, todos os sistemas de segurança, que normalmente acompanham essa tipologia (o arranha-céu de escritórios), deixaram de funcionar. Devemos lamentar, evidentemente, a perda de vidas humanas, que enluta a cidade de São Paulo, mas não devemos esquecer o edifício, pois ele é parte da memória social, cultural e técnica de nossa cidade. Sua perda também nos enluta.

Trata-se de uma tragédia urbana anunciada, que combina: falta de políticas públicas sociais efetivas, descaso para com a situação daqueles que não possuem moradia, inexistência de políticas de ação de proteção dos bens culturais após o seu tombamento. A degradação do edifício alastrou-se por anos, evidenciando a negligência e o desperdício provocado pela ociosidade de equipamentos altamente qualificados localizados na região central.

É papel do Docomomo, entre outros agentes da sociedade civil, em sua missão específica de velar pelo patrimônio do movimento moderno, solicitar das autoridades o esclarecimento urgente das responsabilidades e a tomada de providências cabíveis para um caso, ou um descaso, tão grave como o que acaba de causar enorme comoção em nossa cidade: o desabamento de um ícone tombado da arquitetura moderna paulista que causou a destruição do local onde moravam famílias em situação precária e o falecimento de pelo menos um cidadão.

O Núcleo Docomomo São Paulo gostaria de manifestar, finalmente, que se propõe a contribuir, com a expertise de seus membros, para a construção de políticas públicas que conduzam à adequação de edifícios modernos abandonados ou desativados, ocupados ou não, para novos fins (em especial dos edifícios de escritório no centro de São Paulo), elaborando critérios para a definição dos usos e das intervenções necessária para sua readequação. A trágica experiência do Wilton Paes de Almeida deve resultar em conhecimentos que impeçam a repetição de situações similares no futuro e o Docomomo está disposto a colaborar nessa direção.


Núcleo Docomomo São Paulo


Edifício Wilton Paes de Almeida, Roger Zmekhol. Foto Fernando Vázquez

Ata da 670ª Reunião Ordinária do Conpresp








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