A perda de um ícone da arquitetura moderna paulista: o Edifício Wilton Paes de Almeida

Atualizado: 4 de Mai de 2018

Carta aberta do Núcleo Docomomo São Paulo sobre o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, obra do arquiteto Roger Zmekhol.

Tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp): Resolução 37/Conpresp/1992, referente ao tombamento dos “elementos constituidores do ambiente urbano” na área do Vale do Anhangabaú. Tipo de proteção: NP3 (“bens de interesse histórico, arquitetônico, paisagístico ou ambiental, determinando a preservação de suas características externas”).

O Núcleo Docomomo São Paulo lamenta profundamente as perdas e mortes desnecessárias e injustificadas no desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, bem como a perda desse ícone da arquitetura moderna paulista. Importante obra do arquiteto Roger Zmekhol (1928-1976), professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que dirigiu um escritório de arquitetura paulistano, dedicado a projetos sofisticados de torres corporativas de padrão norte-americano na cidade de São Paulo.

O edifício foi construído entre 1961 e 1966 seguindo de forma inspirada os preceitos do movimento moderno, especialmente aqueles praticados por Mies van der Rohe, nos edifícios Lake Shore Drive (1949), em Chicago, e o Seagram (1958), em Nova York, e de edifícios como o Lever House de Skidmore, Owings & Merrill (SOM), em Nova York (1950-1952). Foi uma obra contemporânea de arranha-céus como o Chicago Federal Center (1960-1974) e o Toronto Dominion Centre (1964-1969) de Mies van der Rohe, e outros projetados pelo SOM, erguidos em Chicago e Nova York, considerados patrimônios arquitetônicos dessas cidades. Não escapa à comparação com outros ícones da arquitetura de arranha-céus que se constituíram em modelos para inúmeros edifícios erguidos em vários lugares do planeta durante a década de 1960, em especial na América Latina.

No entanto, o edifício Wilton Paes de Almeida não pode ser considerado uma mera repetição daquelas importantes obras modernas construídas na América do Norte. Pelo contrário, representa perfeitamente as condicionantes construtivas e a situação da indústria da construção do Brasil à época. Tendo como cliente a Companhia Comercial Vidros do Brasil (CVB), braço de uma fabricante norte-americana de vidros planos, o edifício foi concebido como um mostruário de seu produto.

Ao contrário dos seus contemporâneos norte-americanos, o edifício não usa estrutura metálica, mas estrutura de concreto armado, com pilares de secção “H” (variável, pois a secção diminui à medida que a carga atenua nos andares superiores). Esses pilares – a diferença dos de Mies van der Rohe, que se situam na periferia da planta – recuam da fachada, deixando em balanço lajes de mais de dois metros que se afinam até a borda, proporcionando ao corpo do edifício a especial leveza que as fotografias de época testemunham. As lajes nervuradas também racionalizam a estrutura, reduzindo o número de pilares para quatro, que trabalham solidariamente com o robusto núcleo de circulação vertical, onde os serviços foram instalados, deixando a planta livre.

O curtain-wall (ou pele de vidro ou fachada-cortina), caraterística marcante da tipologia do arranha-céu norte-americano, era arrojado e elegantemente modulado, usando montantes de alumínio e vidros transparentes, levemente esverdeados, e que distinguia o volume do edifício em uma vizinhança de prédios predominantemente com fachadas de muros. A esbelteza da caixilharia tinha um especial refinamento em concordância com o pormenor estrutural das lajes afinadas nas bordas, de modo a valorizar a superfície envidraçada como elemento principal da fachada e ressaltando o caráter de um “prisma puro” de cristal, diferentemente de outras fachadas-cortinas em prédios paulistanos do final dos anos 1950. O corpo do prisma estava arrematado na parte superior por grelha de alumínio que alongava a pele por quase três andares a mais. No topo, ainda, o projeto original previa um pequeno heliporto.

Previsto para ocupação total por um usuário, sua planta previa layouts flexíveis e instalação de ar condicionado central integrado à estrutura – uma solução inovadora, evitando as caixas de ar condicionado individuais e aparentes nas fachadas. O edifício era climatizado em todos os andares mediante dutos embutidos nas entrantes das colunas de concreto. O sistema de partição interna respeitava a planta livre incluindo trilhos modulados no forro, nos quais podiam ser penduradas divisórias móveis que separavam os ambientes. Um prodígio pioneiro da engenharia e da arquitetura moderna paulista de então.

Esse marco da arquitetura moderna brasileira ruiu hoje, 1º de maio de 2018, pela madrugada, afetando ainda outros edifícios, incluindo a igreja luterana Martin Luther, também tombada pelo município, que lhe era vizinha e cuja estrutura em grande parte foi destruída. Devemos lamentar, sobretudo, a perda de vida humana, que só enluta ainda mais a cidade de São Paulo.

Trata-se de (mais) uma tragédia urbana anunciada, que combina a falta de políticas públicas sociais efetivas, o descaso para com a situação daqueles que não possuem moradia e o abandono de ações de proteção dos órgãos responsáveis que observaram a degradação do edifício durante 17 anos e o desperdício provocado pela ociosidade de equipamentos altamente qualificados por negligência, em região com sérias demandas. Era evidente que o edifício se encontrava há tempos em situação de colapso funcional. Estava em péssimo estado de manutenção, com vidraças quebradas, infraestrutura precária, instalações inadequadas e ainda uso desaconselhável como moradia sem as necessárias adaptações para um edifício com destinação original para escritórios.

No 5º Simpósio Docomomo São Paulo, realizado em 2017, já tinha sido apontado o estado lamentável de degradação em que essa região do Largo do Paissandu se encontra. O edifício de Zmekhol não estava sozinho. Outros ícones da arquitetura moderna o acompanhavam: o Edifício Domingos Fernandes Alonso, onde está a Galeria Olido, construído pela Sociedade Construtora Duarte, em 1957; o conjunto José Paulino Nogueira, em cuja base se encontrava o cine Paissandu, obra do Escritório de Ramos de Azevedo e Severo Villares, de 1958; o Centro Comercial Grandes Galerias, conhecido como “Galeria do Rock”, projeto e construção de Alfredo Mathias, de 1962-1963; e, ainda, o Cine Art-Palácio, arquitetura de Rino Levi (o cinema, não o edifício), de 1936. Estão em estado lamentável, mas nenhum deles perto da situação do Wilton Paes de Almeida. Nem por isso, devemos nos descuidar desses também.

Atendendo às diretrizes internacionais do Docomomo, exige-se das autoridades o esclarecimento urgentemente das responsabilidades e a tomada das providências cabíveis para um caso, ou um descaso, tão grave como o que acaba de causar enorme comoção em nossa cidade: a destruição de um importante exemplo da arquitetura moderna paulista, o desabamento do local onde moravam famílias e o falecimento de pelo menos um cidadão.

O Núcleo Docomomo São Paulo reitera seu mais profundo pesar pelo acontecido, especialmente pelas perdas e mortes envolvidas no desabamento do edifício.


Arquiteto: Roger Zmekhol (1928-1976) Cliente: Cia. Comercial Vidros do Brasil Construtor: Morse & Bierrenbach Tipologia: Edifício em altura (arranha-céu) andar térreo (agência bancária), 2 sobrelojas, 20 andares tipo, 3 andares técnicos, 1 subsolo (11.000m²) Ano da construção: 1961-66 Endereço: Rua Antônio Godoy, 23, 27 e 33, e Avenida Rio Branco, 10, Santa Efigênia, Centro (Largo de Paissandu)


Edifício Wilton Paes de Almeida. Foto Hugo Segawa


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